Notícias actualizadas ao minuto sobre o sector automóvel

“Há uma contradição clara na fiscalidade automóvel”

Franscisco Geraldes4

É um bocado atípico o esforço que Portugal faz na fiscalidade dos automóveis novos, com a falta de esforço que faz nos importados. Por um lado, quando olhamos para o enquadramento fiscal dos novos queremos ser o país com o parque de veículos mais ecológico, ou seja, mais eficiente em termos de emissões.

Mas quando olhamos para a política fiscal dos usados importados, temos uma fiscalidade que permite importar tudo o que há de pior na Europa, tudo o que há de velho em termos de tecnologias. Há uma contradição clara, garante Francisco Geraldes, diretor-geral da Mitsubishi Portugal, na terceira e última parte da sua entrevista ao Automonitor.

Como é que caracteriza o mercado automóvel português?

Tem tido um trajeto agitado. O mercado atingiu o seu pico em 2000, em situações económicas do país muito diferentes, num nível muito acima do normal e depois estabilizou entre os 250 e os 270 mil carros, antes de cair a pique com a crise, e atingir um mínimo de 112/113 mil unidades, em 2012.

As 250/270 mil unidades são a dimensão natural do mercado?

Depende da perspetiva. Se olharmos para a idade do parque automóvel, entre 11 e 12 anos, é um parque que, para se manter assim, terá de andar a vender entre os 180 e os 200 mil carros. Ou seja, o mercado deveria andar acima das 200 mil unidades para evitar um maior envelhecimento.

A ideia de que o nosso parque automóvel é recente é uma ideia de quem vive em Lisboa e no Porto, porque a idade média do parque é de quase 12 anos, um dos mais envelhecidos da Europa. Em termos de volume, a manter-se a população e a atividade económica, o mercado deveria andar sempre entre os 200 e os 250 mil veículos. Neste período de crise tivemos anos muito maus, mas em 2015 recuperámos para perto dos 215 mil e eu diria, portanto, que o mercado natural deverá andar pelas 250 mil unidades, em condições de uma economia estável.

Mas tem havido fatores externos que têm afetado permanentemente este setor. A fiscalidade nos automóveis em Portugal, para além de ser pesada, é instável. Os governos alteram todos os anos os impostos sobre o automóvel. Ainda agora vimos nova alteração fiscal, com o Orçamento de Estado para 2016.

Sem entrar na discussão se ela é correta ou incorreta, penso que não há dúvidas sobre os dois pontos essenciais que afetam muito o setor e que são: a fiscalidade automóvel ser excessiva e instável e portanto, para qualquer empresário ou empresa desenvolver o seu negócio, fazer um plano a prazo, a 5, 10 ou 15 anos, com um setor que tem alterações fiscais praticamente todos os anos, isso é extremamente difícil.

Mas além das vendas de veículos novos, há ainda o mercado de usados e o mercado dos veículos importados, ou seja, de fasto o mercado automóvel em Portugal é afinal maior do que parece. Andará pelas 300/350 mil unidades?

É um bocado atípico o esforço que Portugal faz na fiscalidade dos automóveis novos, com a falta de esforço que faz nos importados. Por um lado, quando olhamos para o enquadramento fiscal dos novos queremos ser o país com o parque de veículos mais ecológico, ou seja, mais eficiente em termos de emissões. Mas quando olhamos para a política fiscal dos usados importados, temos uma fiscalidade que permite importar tudo o que há de pior na Europa, tudo o que há de velho em termos de tecnologias. Há uma contradição clara.

Se queremos melhorar em termos de emissões, isso não se faz apenas pelos veículos novos, mas pelo parque total. Houve políticas positivas em relação a este objetivo, como os incentivos ao abate de carros mais antigos. que melhoraram as emissões globais do parque, mas confesso que tenho dificuldades de perceber a política de importados.

Porque é que se voltou atrás nessa questão e se voltou a facilitar fiscalmente as importações de usados?

Terá de perguntar a quem toma essas decisões. Vejo sempre argumentação à volta das regras da concorrência europeia, mas vejo uma política muito mal definida e pouco consistente, porque já deram passos para a frente e passos para trás. Obviamente que nós não somos parte interessada na importação de usados, antes pelo contrário, o setor de veículos novos não beneficia nada que se permita, que se facilite, ou que se torne mais barato, a entrada de veículos usados.

No vosso caso, a estratégia de aposta nos SUV afasta a Mitsubishi dos dois maiores segmentos do mercado, os compactos e utilitários, mas também afasta a vossa marca dos canais de frotas e de rent-a-car…

… No canal do rent-a-car mantemos a oferta do Spacestar e também temos vendido o ASX, e em ambos os casos com bastante sucesso. No ano passado fizemos mais de 300 carros de rent-a-car, sensivelmente 10% das nossas vendas, que é a percentagem que nos parece correta, não só por uma questão de rentabilidade, mas também por uma questão de equilíbrio entre a venda de novos e usados. Os carros vendidos ao rent-a-car voltam alguns meses depois ao mercado, para serem vendidos como semi-novos. Portanto penso que um mix entre 10% e 15% das vendas para o rent-a-car é o mix em que se consegue fazer este negócio de rent-a-car a custos viáveis.

Nas frotas de empresas a oferta de SUV também começa a crescer. A imagem mais tradicional de que o SUV não é apropriado para carro de empresas está ultrapassada. Com o tipo de SUV que hoje há no mercado, eles são uma ótima alternativa. Além disso, os SUV também oferecem uma nova oportunidade para as frotas, porque os valores residuais de muitos SUV são melhores que os valores residuais que os automóveis de passageiros de categoria semelhante.

Um ASX com três anos não tem menor valor que um veículo de passageiros do segmento C com a mesma idade. E havendo uma maior procura deste tipo de veículos, neste momento, é uma forma de, com custos idênticos ou até menores, oferecer aos utilizadores uma solução de carro de empresa de que eles gostam mais.

Um mercado onde o rent-a-car e as frotas têm um peso, em que há vendas fictícias de auto matrículas e que está um pouco alavancado pelas exportações, é um mercado que está a ter uma recuperação saudável?

Essas práticas não existem tanto como se fala. Em períodos críticos, a exportação de carros é feita para corrigir stocks ou problemas pontuais, mas não acredito que as marcas gostem de fazer isso de forma sustentável e estrategicamente. As auto matrículas, que algumas marcas fazem mais do que outras (e em que nós temos optado por não participar), não deixam de ser veículos que têm depois de ser vendidos. Podem ser veículos que são depois vendidos com uma maior promoção, um desconto maior, mas são carros que vão ao mercado e que depois têm de ser vendidos. Ou seja, a venda pode até ser fictícia durante um mês, mas depois eles têm de ser vendidos e, ao fim de um ano, esses carros representam vendas de fato. Independentemente de não terem sido vendidos no mês em que foram matriculados, a verdade é que eles acabam no mercado.

Quanto ao rent-a-car, os carros quando voltam tem de ser absorvidos pelo mercado de particulares. No caso das frotas, que teve um peso grande durante a crise, o governo até fez um esforço para que ele a reduzir-se, porque o aumento da fiscalidade nas tributações autónomas dos carros incentiva a que as empresas utilizem menos o carro de serviço. Mas é um segmento que ao longo do tempo poderá ter um peso menor.

Até porque obviamente estamos a comparar com períodos de crise, em que os particulares compram menos e, portanto, o peso das frotas é maior.

Mas o mercado está ou não a recuperar de forma saudável? Estão a conseguir recuperar as margens que tinham antes de crise?

O mercado está a recuperar de forma saudável, em termos de volume e os volumes que se praticam são reais. As margens são menores, porque as promoções são maiores, porque a oferta em todos os segmentos se alargou e porque o nível de concorrência entre as marcas é muito grande.

A verdade é que temos que ter ofertas competitivas para os novos clientes o que talvez tenha levado a uma certa deterioração das margens ao longo dos anos, que tem de ser compensada pelo aumento do volume.

São assuntos que obviamente não se separam. Há uma recuperação real do mercado, estão a vender-se mais carros, e esses carros estão a ser comportados por clientes reais. Obviamente que tudo contribui para esse aumento do mercado: o rent-a-car, devido ao sucesso do turismo, a venda a empresas, a venda a particulares. E pode haver casos pontuais de marcas a fazer auto matrículas e alguma exportação, mas o mercado não cresceu porque os carros foram matriculados e exportados. Não é tudo fictício.

A deterioração das margens parece-me que não é um problema exclusivo do nosso setor de atividade. Cada vez os clientes estão mais informados e negoceiam melhor, há mais concorrência, , há oferta de muitos produtos em muitos mais segmento e a intenção do cliente ter maiores  descontos gera um maior deterioração das margens. A agressividade comercial é muito maior.

Uma questão importante na venda a particulares e no apoio aos concessionários é a questão do financiamento. A Mitsubishi está alinhada com alguma financeira? Como compensam o problema de, ao contrário do que acontecem com outras marcas, não disporem de uma financeira própria?

Temos um parceiro financeiro, que no caso da Mitsubishi em Portugal é o Santander Consumer e, portanto, temos um produto de crédito feito em parceria e dispomos de produtos, quer para apoiar a atividade dos concessionários, quer para financiar o cliente final, seja ele particular ou de empresas.

Neste campo o mercado divide-se entre as financeiras da marca, que no nosso caso é o Santander Consumer, e os operadores que estão no mercado. Tal como qualquer marca, trabalhamos com as gestoras de frotas independentes que participam ativamente no mercado das empresas, e com os bancos comerciais e outras instituições financeiras, a que muitas empresas recorrem, contratando o diretamente com elas o próprio financiamento

O que está previsto este ano em termos de novos lançamentos da Mitsubishi?

Este ano vamos ter um ano praticamente com a gama toda renovada.  Renovámos, no final do ano passado, a pickup, que é um modelo importante para nós e o nosso terceiro modelo mais vendido. O Outlander também foi renovado, quer na versão diesel de sete lugares, quer na versão diesel 4×4 ou na diesel PHEV, de cinco lugares. E o Spacestar será alvo de um facelift, a meio do ano.

Objetivos para 2016?

Estamos a planear que o mercado seja sensivelmente igual ao do ano passado, ou que tenha um crescimento muito ligeiro, e nesse contexto achamos que podemos crescer para cerca de 3400 unidades, contra os 2900 do ano passado. Ou seja, mais 500 unidades, essencialmente em segmentos nos quais, por questões internas ou de produto não renovado, não conseguimos no ano passado os números que poderíamos ter.

Ler Mais

pub


OUTRAS NOTÍCIAS
Comentários
Loading...