Notícias actualizadas ao minuto sobre o sector automóvel

Especial Volkswagen Golf GTI: O triunfo dos “malucos do GTI”

Na segunda parte do especial dedicado ao 40.º aniversário do Volkswagen Golf GTI, o foco estará na evocação do período de desenvolvimento deste icónico modelo, cujas origens, como já se pôde constatar no primeiro destes artigos, estiveram numa “sociedade secreta” de funcionários da Volkswagen que procuraram desenvolver um desportivo compacto e acessível, mas sempre em segredo.

Abordamos, uma vez mais, o legado e o presente do Golf GTI, modelo que em Worthersee, na Áustria, vai contar com um evento de comemoração em sua homenagem.

De radical a civilizado

O segredo foi mesmo a ‘alma do negócio’ para a criação do Golf GTI, compacto desportivo que marcou o início de uma era nos compactos desportivos. Numa recatada oficina da fábrica de Wolfsburgo, o projeto começou a ganhar forma. Sempre depois das horas de trabalho, estes “gloriosos malucos do GTI” puseram mãos à obra e produziram o primeiro protótipo, para o qual recorreram ao motor do Audi 80 GTE, um 1588 cc de 100 cv, com um escape bem ruidoso. Esta solução foi sendo aperfeiçoada, até redundar nuns mais generosos 110 cv, graças à adoção de um novo coletor de admissão e, claro, à inclusão do hoje famoso sistema de injeção K-Jetronic, que substituiu os carburadores do motor original.

Herbert Schuster descreve a simplicidade do primeiro GTI praticamente nos mesmos nove segundos que este levava para acelerar de 0 aos 100 km/h: “Adesivos pretos nos frisos laterais e na moldura do portão traseiro, friso vermelho na grelha dianteira, uma bola de golfe na manete da caixa, chassis 20 mm mais baixo e molas mais duras, travões mais potentes, barra estabilizadora no eixo posterior, spoiler dianteiro, escape modificado e o motor do Audi 80 GTE”…

VW Golf Gti (8)

Pode parecer simples, mas a verdade é que o trabalho no “sport Golf” não saiu exatamente ‘no ponto’ logo às primeiras tentativas. A unidade inicial era claramente um radical sem filtro: suspensão duríssima, mais preparada para pista do que para a estrada do quotidiano, e sonoridade de escape de corrida que conseguia rivalizar com qualquer carro de corrida… No entanto, a “sociedade secreta do GTI” conseguiu não perder o foco e talvez tenha sido isso que fez toda a diferença, como recorda Herbert Schuster: “Um carro de competição tem apenas de ser rápido, mas nós queríamos um automóvel que oferecesse grande prazer de condução, isto é, rápido, mas ao mesmo tempo manobrável, que permanecesse neutro mesmo nos limites dinâmicos”, explica.

Depois daquelas primeiras tentativas mais radicais, a equipa adotou outro caminho. O primeiro protótipo tinha como base um chassis Scirocco (os apoios eram iguais aos do Golf), o que desde logo desvirtuava a essência do projeto: “Decidimos por isso partir de um Golf standard e fomos ajustando o chassis ao incremento de potência do motor”, revelou.

A forma como se partiu de uma versão standard explica muito da essência do GTI, em que a discrição exterior combinava com o espírito de “desportivo civilizado”: “O design sempre quis evitar as extravagâncias ou o aspeto musculado e isso traduzia o espírito do carro, mas também o contexto em que ele foi desenvolvido. Nós, os engenheiros, queríamos o melhor carro, o mais seguro e ao melhor preço. Por outro lado, com o equilíbrio entre a aparência e a tecnologia, seria mais tranquilo convencer aqueles que viam com ceticismo os pequenos carros com muitos cavalos”, recorda Schuster.

A hora da verdade

Com todos os elementos da “sociedade secreta” satisfeitos com o resultado do primeiro protótipo, era necessário agora passar à ação dentro da empresa. Propor a ideia aos decisores era uma tarefa delicada, por muito que o projeto fizesse sentido àquele grupo de entusiastas. Coube a Anton Konrad, diretor de Comunicação, fazer a primeira abordagem, já em 1975 e o “alvo” escolhido foi Werner P. Schmidt, vice-presidente para as Vendas. Acabado de chegar da Audi, onde tinha participado ativamente no projeto do 80 GTE e nas primeiras aventuras do que viria a ser o sistema quattro, Schmidt detinha grande poder na gestão de Wolfsburgo: nenhum carro era lançado sem a sua aprovação.

Konrad convidou Schmidt para ver ao vivo o que aquele grupo tinha preparado, uma estratégia que não era estranha ao administrador da Volkswagen AG, como recorda hoje o próprio: “Lembro-me quando Ferdinand Piech me levou a testar o sistema quattro pela primeira vez e de ter ficado rendido à sua eficácia… Nada substitui a experiência no terreno e, por isso, quando me levaram a ver o ‘sport Golf’ recebi a notícia com tranquilidade”. Werner Schmidt reconhece que se tudo lhe tivesse sido apresentado antes de acontecer, provavelmente teria dito que não ao projeto, face ao posicionamento que era pretendido na altura para a marca Volkswagen.

“Mas naquele caso não podia ficar indiferente ao entusiasmo da minha própria equipa. A princípio estava cético, mas depois vi aquele empenho e emoção generalizada nos engenheiros e nos homens do marketing e pensei que deveria confiar naquilo tudo”, lembra Schmidt.

golf gtiO vice-presidente da Volkswagen só viria a conduzir o Golf GTI três semanas depois, na pista de Ehra Lessen: “Konrad e os outros incentivaram-me a ir mais depressa”, ironiza, para sublinhar tudo aquilo que sentiu ao volante: “Eu realmente não conduzo muito rápido, mas deu para perceber o trabalho que tinha sido feito ao nível das suspensões, comportamento dinâmico, resposta do motor, velocidade…”

Quatro décadas depois deste dia em pista, Schmidt não tem dúvidas: “Eu poderia ter parado o projeto. Teria sido fácil. Mas a verdade é que 30 minutos de experiência em pista foram mais cruciais do que uma reunião de 30 administradores”.

A sociedade deixou de ser secreta nesse dia. E o Volkswagen Golf GTI recebeu a luz verde para passar à fase de produção. A primeira aparição pública aconteceu no salão de Frankfurt de 1975, mas as vendas só viriam a arrancar em junho do ano seguinte. O projeto inicial previa uma série limitada de 5000 exemplares, mas a verdade é que o GTI MK1 encerrou a sua carreira em 1983 com mais de 270.000 unidades vendidas. Hoje, na sua sétima geração, o GTI já conta com mais de 2 milhões de carros comercializados. Como sintetiza Anton Konrad, lembrando os dias daquela louca “sociedade secreta” e o sucesso que ninguém previu: “o GTI fugiu ao nosso controlo. Literalmente!”.

 

A primeira parte deste especial pode ser acedido aqui.

Ler Mais

pub


OUTRAS NOTÍCIAS
Comentários
Loading...