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Do VW Carocha ao futuro carro autónomo

A maior parte das histórias começa com um simples “Era uma vez”, mas esta arranca com um mais bicudo “Gesellschaft zur Vorbereitung des Deutschen Volkswagens mbH”… Começou a ser escrita há 80 anos e está ainda longe do último capítulo.

Foto: VW

O que tem em comum o Carocha e o mais recente protótipo autónomo ou elétrico da Volkswagen? É mais o que os une do que aquilo que os separa: independentemente da tecnologia, o seu motor continua a ser a democratização da mobilidade. Pelo meio, 80 anos de uma das histórias mais ricas – e atribuladas – do automóvel.

O sonho da mobilidade acessível a todos é tão antigo como o primeiro automóvel, mas o passo mais decisivo foi dado há exatamente oito décadas. No final de maio de 1937, em Berlim, era criado o “Gesellschaft zur Vorbereitung des Deutschen Volkswagens mbH”, um nome que é todo ele um statement dessa mobilidade: “Companhia para preparar o caminho para o carro do povo alemão”. Esta empresa viria a dar origem à Volkswagen, numa odisseia que começou com a produção do “Carocha” e que redundou naquele é hoje um dos maiores grupos automóveis globais, com 12 marcas, 120 unidades de produção em quatro continentes, mais de 620 mil funcionários e mais de 10 milhões de veículos vendidos por ano.

Desde o início do século XX, que o sonho de condução acessível para todas as classes sociais fascinava o público em geral e mobilizava os engenheiros. O regime nacional-socialista alemão dos anos 30 foi rápido a explorar essa ideia para seus próprios interesses políticos e, em 1934, apenas um ano depois da ascensão deste partido ao poder, já a “Reichsverband der Automobilindustrie” (Associação da Indústria Automóvel do Reich) encomendava a Ferdinand Porsche a conceção de um “carro do povo alemão”. Juntamente com sua equipa, o famoso engenheiro desenvolveu um veículo que estava pronto para produção em 1938 e que democratizou a mobilidade durante décadas, após o final da Segunda Guerra Mundial. O “Carocha” estabeleceu as bases do que é hoje o Grupo Volkswagen e foi o carro mais bem-sucedido da sua era, com mais de 21,5 milhões de veículos produzidos.

A marca que esteve para não acontecer

Mas a verdade é que o “Carocha” e a Volkswagen estiveram quase para não acontecer. Recuemos a abril de 1945… As forças do III Reich estão no seu último estertor e, no meio da devastação que sufoca a Alemanha, a fábrica da Volkswagen, em Wolfsburgo, tem o destino traçado: desmantelar aquela unidade parcialmente destruída pelos bombardeamentos e transferir a maquinaria para Inglaterra ou para a Ford, nos EUA, para produzir ali o modelo. O fabricante norte-americano não acreditou no “Carocha” e, de Londres, as notícias também não eram as melhores… Um exemplar foi enviado para a capital britânica para avaliação por uma comissão de fabricantes locais, liderada por Sir William Rootes, cujo relatório se revelou demolidor, alegando que aquele carro seria “pouco atrativo para o comprador típico de um automóvel”. O documento era bem perentório ao considerar o “Carocha” “demasiado feio e barulhento”, ao mesmo tempo que sublinhava que “construí-lo seria uma missão totalmente antieconómica”.

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Passadas todo este tempo, agora que sabemos que foi um dos carros mais vendidos de sempre, com 21,5 milhões de unidades comercializadas em todo o mundo, não podemos deixar de pensar nas ironias da história. Esta é uma delas, bem parecida, de resto, com outra passada também em Londres, quando os patrões da editora discográfica Decca declararam, em 1962, que “os Beatles não têm futuro no mundo do espetáculo…”

Apesar de o “Carocha” estar fora das prioridades, em Wolfsburg não havia lugar para a desistência. Um jovem major britânico de 29 anos, Ivan Hirst, engenheiro de formação oriundo de Manchester, reconheceu-lhe potencial e acabou por descobrir a primeira oportunidade nas contingências do pós-guerra. Com os fabricantes britânicos e norte-americanos empenhados em recuperarem os seus mercados, as forças ocupantes na Alemanha debatiam-se com falta de meios de transporte, pelo que Hirst consegue assegurar, em Agosto de 1945, um pedido inicial de 20 000 unidades para transporte militar e serviços de saúde nas zonas rurais, permitindo assim recuperar a fábrica e, não menos importante, garantir as autorizações para o fornecimento de matérias-primas para a reconstrução dos edifícios e para a produção dos automóveis.

A viragem para a Volkswagen e para o “Carocha” começa verdadeiramente a acontecer em 1948. A reforma monetária na Alemanha, introduzida em junho desse ano, travou os riscos de hiperinflação, ao mesmo tempo que punha cobro a um alarmante crescimento do mercado negro e da economia paralela. É nesta altura que os britânicos contratam Heinrich Nordhoff, um novo diretor-geral com ampla experiência no setor automóvel. Depois de Hirst, também este alemão de 50 anos, antigo diretor da fábrica da Opel em Brandenburgo, parece ter-se rendido a uma certa paixão pela “saga” do “Carocha”: muda-se para a fábrica, onde dorme numa cama de campanha, e fala sem rodeios perante todos os trabalhadores: a Volkswagen tem de viver por si própria.

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Mobiliza a rede de concessionários entretanto estabelecida, quer na Alemanha, quer nos países limítrofes, e beneficia das necessidades crescentes de mobilidade para estabelecer um regime de autofinanciamento, fruto do pagamento adiantado das encomendas dos clientes, algo que durou até 1965 e ainda hoje é um feito único na história do automóvel.

Nordhoff aposta igualmente na exportação, com Dinamarca, Suécia, Holanda, Bélgica e Suíça a liderarem o crescendo de popularidade do “Carocha”. É, de resto, da Holanda que vem a ideia do segundo modelo da Volkswagen, quando o importador local, Ben Pon, convence a administração a conceber um veículo versátil que respondesse aos requisitos de mobilidade dos pequenos negócios que despontavam numa Europa que recuperava a sua economia. Nordhoff colocou o departamento de design a trabalhar na ideia e não foi preciso esperar muito tempo até que surgisse outro modelo que haveria de se tornar mais um ícone da modalidade: em 1950 saia da linha de produção a primeira Transporter, também conhecida como “pão de forma”.

O “Carocha” e a Transporter moldaram decisivamente a expansão da Volkswagen. O “milagre económico” dos anos 50 ajudava nas vendas – no final de 1950, a lista de espera para um “Carocha” já ultrapassava os 20 000 clientes. Ao mesmo tempo que os compradores alemães e restantes europeus lhe reconheciam a qualidade, simplicidade e robustez, o “carro do povo” era visto como um sinal da recuperação da República Federal Alemã, também ela um símbolo no contexto político que prenunciava a “Guerra Fria” com o bloco de leste.

A entrada no mercado norte-americano desempenhou um papel fundamental nesta aura do “Carocha”. As primeiras unidades começaram a ser exportadas logo em 1949, numa operação que assentou numa das campanhas de publicidade mais brilhantes de sempre, pela criatividade e pelo foco certeiro na estratégia. Desenvolvido pela Doyle, Dane & Bernbach (DDB), o slogan “Think Small” dava corpo à mensagem-chave num mercado dominado pelo gigantismo opulento dos modelos vindos de Detroit. O Type 1 era apresentado como um segundo carro da família, que tanto podia fazer uma viagem por uma qualquer “Highway”, como ser usado para levar as crianças à escola ou para os condutores mais jovens.

Enquanto o “Carocha” era o primeiro e único carro de uma boa parte das famílias europeias – muitas gerações aprenderam a conduzir nele – do outro lado do Atlântico aquele pequeno Volkswagen, mais económico e menos poluente que os modelos locais, conquistava um lugar muito próprio numa noção de mobilidade que os grandes construtores da época não conseguiram compreender.

De “monocultura” a grupo global

O crescimento da Volkswagen começava a consolidar-se em todas as frentes e é nos anos 60 que se dá a transição para o grupo global que conhecemos hoje. Em 1965, a Volkswagen adquire a Auto Union GmbH, cuja fusão com a NSU, em 1969, viria a dar origem à Audi AG de hoje. E um novo impulso a partir da década de 1980: Seat (1986), Skoda (1991), Bentley (1998), Bugatti (1998), Lamborghini (1998), Porsche (2009), MAN (2011), Ducati (2012) e Scania (2015) passam a fazer parte daquele que é o maior grupo mundial da indústria.

Uma das características mais marcantes da gestão da Volkswagen foi, desde a primeira hora, a sua capacidade de ler o momento, num processo de decisão muito especial que sempre colocou as tendências sociais no mesmo plano estratégico das grandes opções tecnológicas. Isso mesmo fica claro com outro grande ícone da mobilidade do século XX: o Volkswagen Golf.

Foto: VW

Confrontados com a necessidade de substituir o “Carocha”, uma verdadeira “monocolultura” da marca, os responsáveis de Wolfsburgo “fizeram o trabalho de casa”, como recorda o italiano Giorgietto Giugiaro, o designer que projetou o Golf: “Eles sabiam que tinham a enorme responsabilidade de produzir um sucessor para o carro de massas, mas com a perfeita consciência de que este tinha de estar de acordo com as tendências do momento”.

A transição tecnológica (tração dianteira, arrefecimento a água, etc) foi acompanhada de um conceito que perdura até aos dias de hoje: em 1974, ainda na ressaca da crise petrolífera, era lançado um Hatchback prático, confortável e versátil que fez as delícias de uma classe média para quem a mobilidade era um dado adquirido. O sucesso foi tal que, 43 anos e 33 milhões de unidades depois, o seu conceito continua atual. O Golf, tal como “Carocha” no seu tempo, mantém-se como o elemento definidor de toda a uma classe de automóveis.

Regresso ao futuro

Agora, na segunda década do Século XXI, as exigências que se colocam à indústria automóvel são novas e sem precedentes, com a velocidade da mudança a atingir níveis nunca vistos. É assim que, após anos de crescimento contínuo e relativamente linear, a crise dos diesel e os novos desafios no mercado exigem um realinhamento também no Grupo Volkswagen.

Foto: VW

A digitalização, a mobilidade elétrica e a condução autónoma desempenham um papel crucial nesta estratégia. “A partir de 2020 iremos lançar a nossa maior ofensiva na mobilidade elétrica. Como fabricante de volume, não estamos a olhar para produtos de nicho, mas sim para o coração do mercado. Em 2025 queremos vender um milhão de carros elétricos por ano e sermos o líder nesta área. Os nossos carros elétricos serão a nova imagem de marca da Volkswagen”, como explicou Herbert Diess, presidente da marca.

Com o plano “Together – Strategy 2025”, a empresa está a operar a sua transformação, num caminho que fará deste construtor um líder de mobilidade sustentável. Para isso, foi criada a nova marca MOIA, com a qual o grupo espera, em 2025, ter 80 milhões de utilizadores ativos, no que será um ecossistema digital cujo objetivo é um volume de negócios anual de mil milhões de euros em produtos relacionados com mobilidade partilhada.

Foto: VWEsta é porventura a maior mudança de sempre para a Volkswagen. No entanto, se olharmos para a sua experiência de 80 anos, vemos que a história se repete: aquilo a que estamos a assistir é à tal capacidade de ler o que se passa à sua volta e agir sem hesitar. Em Wolfsburgo vivem-se, por estes dias, momentos de regresso ao futuro, mas, se pensarmos bem, sempre foi assim…

Fonte: Newsroom SIVA
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