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Sabe quem foram as gloriosas Bentley Girls?

Os “Bentley Boys” fazem parte da história do automobilismo, mas há um grupo tão virtuoso, e talvez mais corajoso, mas injustamente esquecido, a quem a marca deve uma boa parte da sua mística: as “Bentley Girls”.

O ano é 2003 e o lugar é o exclusivo hotel Savoy, em Londres. Para celebrar a sua primeira vitória da “era moderna” em Le Mans, a Bentley recria o célebre jantar de 1927 dos “Bentley Boys”, então liderados por Woolf Barnato. O cenário foi recuperado ao detalhe, desde o rigoroso dress code (black-tie, of course), à ementa, passando pelo champanhe.

Em 1927, bem no centro do Grand Ballroom do Savoy estava um Bentley Speed 8 vencedor; em 2003, o mesmo display, mas com o Speed 8 que levou Tom Kristensen, Rinaldo Capello e Guy Smith a oferecerem a primeira vitória da Bentley nas 24 Horas de Le Mans em 73 anos. No jantar original, Woolf Barnato em pessoa; no novo milénio, a sua filha Diana Barnato, então com 85 anos de idade e a única naquela festa com memórias pessoais da era dos “Bentley Boys”.

Há 16 anos, o momento já era muito especial, mas o melhor estava ainda para vir: durante o jantar, foi lançado um desafio de “pit stop” improvisado para ver quem conseguia entrar no cockpit do Speed 8 vencedor e fechar a porta no menor espaço de tempo. Diana Barnato não esteve com meias medidas: chutou os sapatos de cerimónia, correu pelo salão e saltou para dentro do carro, perante os aplausos que deitaram abaixo o lustroso ballroom do Savoy.

O seu pai teria ficado orgulhoso. Mas o episódio mostra mais do que isso: para além dos “Bentley Boys” que a história do automóvel regista como um dos seus episódios mais glamorosos, houve um grupo de mulheres da alta-sociedade britânica que desafiou as convenções da época. Esta é a história das “Bentley Girls”.

Tal pai, tal filha

Diana Barnato herdou do seu pai a imensa fortuna conquistada nas minas sul-africanas de diamantes (nomeadamente a maior de todos os tempos, Kimberley, cujo fosso é visível do espaço…) que tinham sido fundadas pelo avô Barney Barnato. Mas recebeu mais do que isso: no seu ADN estava também o talento e a coragem do progenitor. Tanto assim era que, logo aos 18 anos, procurando sair da redoma social reservada às jovens debutantes da nata londrina, pagou 3 libras por uma lição de voo a bordo de um Tiger Moth, o mítico biplano que na década de 30 formou milhares de aviadores da Royal Air Force. Para Diana, este momento marcaria a sua vida para sempre – uma vida de paixão pela aeronáutica.

E nada como colocar tudo em perspetiva: Diana era uma jovem herdeira de uma família milionária no meio de uma sociedade conservadora. Aos 18 anos, quando escapuliu até ao Circuito de Brooklands para aquele voo no Tiger Moth, corria o ano de 1936, e se é certo que os direitos da mulher estavam especialmente avançados no Reino-Unido, pilotar um avião era tudo o que não se esperava de uma jovem britânica.

O pai, Woolf Barnato, não via impedimento nesta paixão pelas máquinas e pela adrenalina, pelo menos que se saiba. Talvez por isso, quando Diana fez 21 anos, ofereceu-lhe Bentley 4 ¼ Litros Park Ward, cinzento metalizado, que ela conduzia de forma primorosa.

Em 1941, depois de servir como assistente de enfermagem da força expedicionária britânica, que havia sido expulsa de França pela invasão alemã no ano anterior, passou os rigorosos testes para o contingente feminino do Corpo Auxiliar de Transporte Aéreo da Royal Air Force. Com pouco mais de um metro e meio de altura, Diana recorria frequentemente a uma almofada especial, de modo a alcançar os comandos da aeronave.

As “ATA girls”, como eram conhecidas, desempenharam um papel fundamental no esforço de guerra. No final do conflito, eram 108 mulheres, entre os mais de 500 pilotos que faziam os “ferry flights” para a entrega dos aviões aos esquadrões por toda a Grã-Bretanha. Diana, como as outras mulheres, pilotava caças Spitfire, Hurricane e Mustang, bem como bombardeiros Wellington e Hampden, mas não os bombardeiros pesados: apenas pilotos do sexo masculino eram considerados como aptos fisicamente para tal tarefa. De acordo com os registos, Diana Barnato Walker terá entregue 260 Spitfires durante seus quatro anos de serviço. Em apenas um mês, em setembro de 1944, distribuiu 33 aeronaves de 14 tipos.

Diana Barnato Walker manteve até ao final da sua vida (viria a morrer em Maio de 2018, com 90 anos) a paixão pelos aviões. Aliás, em 1962 chegou a ser galardoada com o Jean Lennox Bird Trophy por feitos na aviação, enquanto 1963 tripulou um caça Electric Lightning T14, num voo de quase duas horas sobre o Mar do Norte que chegou perto de Mach 2, um recorde feminino para a época, e que fez dela a primeira mulher britânica a ultrapassar a velocidade do som.

A sua vida pessoal foi intensamente marcada pelas aventuras nos céus e o seu apelido de casamento “Walker” é um testemunho vívido desses tempos: em 1944, Diana Barnato casou um piloto condecorado de Spitfires, Derek Walker, e voou com ele, cada um no seu Spitfire, para a lua de mel em Bruxelas. Em plena II Guerra Mundial.

A filha de Woolf Barnato conquistou por direito próprio o seu lugar na história e na mística da Bentley. Poderia ter-se limitado a ser a herdeira, mas Diana foi mais do que isso: para a história da marca ela ficará para sempre como a “Bentley Flying Lady”.

Mary Petre Bruce: piloto em terra, mar e ar

Em 1910, era um acontecimento nacional ser multado por excesso de velocidade. Eram raros os homens a ser parados por infrações. Mulheres, por maioria de razão naquela altura, muito menos. E ainda muitíssimo mais improvável se elas tivessem 15 anos de idade. Mas foi isso mesmo que aconteceu com uma das Bentley Girls mais famosas de sempre, Mary Petre Bruce, que, como se percebe, nasceu com um apetite por velocidade.

Mary era uma adolescente quando foi parar a tribunal por conduzir a moto do seu irmão – ainda por cima em excesso de velocidade – em Osterley, leste de Londres. O juiz acabou por ser mais ou menos condescendente, multando-a em 6 shillings e proibindo-a de guiar motos até que completasse 16 anos. Em 1920, já Mary tinha uns mais convictos 25 anos, comprou o seu primeiro carro, um Enfield-Allday, com o qual deu largas ao seu apetite (voraz!) pela velocidade… e a uma série infindável de “escalas técnicas” em esquadras de polícias e tribunais.

Mary Petre, a primeira grande piloto a inscrever o seu nome no hall of fame da Bentley, respirava a adrenalina dos automóveis em todos os aspetos da sua vida. Em 1926, casou com Victor Austin Bruce, aristocrata com um gosto especial pelas quatro rodas e vencedor do Rally de Monte Carlo daquele ano. Sempre competitiva, alinhou no rali do ano seguinte, completando os mais de 2700 km em 72 horas, sem dormir, terminando em sexto lugar na classificação geral e vencendo a Coupe des Dames. Mary não era de repousar sobre os louros: em 1928 ficaria em segundo lugar. Nos anos que se seguiram, ela e o seu marido estabeleceram vários recordes de distância.

Em 1929, a Sra. Victor Bruce decidiu apontar ao cobiçado recorde das 24 horas, de piloto único, no circuito de Montlhéry, perto de Paris. Mas cedo percebeu que tinha um problema: o seu AC, com que tinha alinhado no Rally de Monte Carlo em 1927, simplesmente não era suficientemente potente, pelo que pediu para ser recebida por W.O. Bentley a quem requereu um Bentley 4 ½ litros da equipa de Le Mans, ou seja, o território dos Bentley Boys…

– “E quem é o seu piloto?” Perante a pergunta de W.O Bentley, a resposta surgiu pronta e incisiva: – “Não sou co-piloto. Vou sozinha”.

Consta que o fundador da Bentley se quedou por um longo silêncio. Até que se virou para Woolf Barnato com o comentário: – “Eu acredito que ela pode fazer isto”.

Mary nunca tinha guiado um Bentley até ao dia da tentativa de recorde e teve de pedir almofadas emprestadas os cronometristas oficiais para que pudesse alcançar os pedais. Apesar do nevoeiro e das más condições da pista, completou 3471 km (2164 milhas) em 24 horas, a uma velocidade média de quase 90 mph (144 km/h) – o que lhe valeu o recorde. A conquista foi amplamente saudada, ao ponto de lhe ter valido a entrada no British Racing Drivers ’Club, como membro vitalício.

No mesmo ano, estabeleceu um recorde de powerboat na travessia do Canal da Mancha (1h 47m, ida e volta), a que se seguiu a compra de um avião, no qual aprendeu a voar em apenas em apenas seis semanas. Iniciava-se aqui uma das fases mais fascinantes da sua história de vida: tal como Diana Barnato, Mary deixou-se encantar decididamente pelo voo, partindo para um voo solo (designação dos aviadores para o voo solitário) à volta do mundo. Um passeio? Nada disso, ou não fosse esta Mary Petre Bruce: na viagem foi quebrando alguns recordes, entre os quais o de se ter tornado a primeira mulher a fazer uma volta ao mundo em voo solo.

Mary foi proprietária das primeiras companhias de aviação “comercial” (correio, carga) que nos anos 30 e 40 floresciam com a própria aeronáutica, entre as quais a Commercial Air Hire Ltd., que iniciou voos de entrega de jornais entre Croydon (o pioneiro aeroporto de Londres) e Paris, usando dois DH.84 Dragons.

Em abril de 1974, aos 78 anos, testou um Ford Capri Ghia a 180 km/h no circuito de Thruxton. E, aos 81 anos, depois de um breve curso de refrescamento de voo, efectuou um looping num monomotor De Havilland Chipmunk.

Mary Petre Bruce morreu em 21 de maio de 1990, aos 94 anos. Faz parte da história da Bentley, mas é, e será sempre, ela mesma uma história notável de superação.

Dorothy Paget: a mecenas do Bentley Blower

Dorothy Paget, a outra Bentley Girl, era fabulosamente rica e profundamente excêntrica. desempenhou um papel vital na criação de um dos Bentleys mais emblemáticos – o 4 ½ litros sobrealimentado, conhecido como o Bentley Blower.

Entre outras particularidades, Paget “rebatizou” seus criados pessoais com os nomes das cores do arco-íris. Era conhecida pelas noitadas de jogo – e por dormir durante todo o dia – mas também tinha uma reputação pouco dada a frivolidades e de ser dona da sua vida.

Foi exatamente nessa qualidade que, enquanto jovem debutante na década de 1920, Dorothy deu mais importância à sua paixão pela velocidade do que em encontrar um pretendente.

O seu interesse em automobilismo desenvolveu-se pela primeira vez durante uma visita a Brooklands, onde teve aulas de condução do “Bentley Boy” Sir Tim Birkin. Ele viria a descrevê-la como uma das melhores condutoras que já conhecera, “capaz de lidar com qualquer carro de corrida produzido neste país ou no estrangeiro”.

Por esta altura, em 1929, já Tim Birkin vivia obcecado em dar mais potência aos Bentley 4 ½ litros e estava absolutamente convencido de que o compressor desenvolvido por Amherst Villiers era o caminho. Apesar da oposição do W.O. Bentley – que considerava que colocar um compressor Roots desvirtuava o conceito do automóvel – Birkin não desisitiu. Faltava o dinheiro, mas havia Dorothy Paget… E Sir Birkin convenceu-a a patrocinar uma equipa de Bentley sobrealimentados. Quatro Bentley Blowers foram construídos e a equipa de Birkin conseguiu assim competir lado a lado com a formação oficial da Bentley, quer no circuito de Brooklands, quer em Le Mans.

O legado histórico

A história e as histórias destas três mulheres representam o próprio legado da Bentley e, acima de tudo, fazem parte da identidade de uma marca que nasceu e se alimentou do requinte, do espírito exclusivo e das emoções próprias de uma época de descobertas e emancipação. Fundada por um engenheiro de formação e de alma, W.O. Bentley, viria a ser catapultada para a fama e para o lado aspiracional da vida por um milionário com paixão pelas corridas, Woolf Barnato, que no final dos anos 20 salvou a situação financeira da marca, da qual assumiu a presidência.

Este interesse despertado junto de investidores influentes não surgiu do nada. O primeiro sucesso em Le Mans, em 1924, atraiu a atenção de um grupo de homens, tão ricos quanto dados a excessos, cheios de vontade de entrar no mundo das corridas. Estava reunida a elite que viria a dar origem aos lendários “Bentley Boys”, vencedores de Le Mans quatro vezes consecutivas, entre 1927 e 1930, naquela que é uma das páginas mais brilhantes da história do automóvel.

Entre estes cerca de 20 “boys” estava Woolf “Babe” Barnato, o mais rápido de todos; Glen Kidston, ex-oficial da Marinha e aventureiro; o Barão André D’Erlanger, banqueiro e popular playboy internacional; Sir Henry “Tim” Birkin, milionário com carreira na Royal Air Corps; J. Dudley Benjafield, médico da Harley Street, a rua de Londres onde se concentravam os clínicos mais requisitados; e, claro, Frank Clement, o dedicado profissional da Bentley que havia sido um dos pilotos na vitória de 1924.

As Bentley Girls, como fica claro, pertenciam a esta elite britânica dos “anos loucos” do pós-I Guerra Mundial. Menos conhecidas do que os “gentleman drivers”, desempenharam porém um papel fundamental no crescimento e na reputação da Bentley. Acima de tudo, demonstraram que a emoção automóvel não é uma questão de género. E, nos anos 20 e 30, isto era quase tudo.

(fonte newsroom siva)

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