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Os pioneiros elétricos de Wolfsburgo

O novo e-Golf esconde atrás de si uma história de mais de 40 anos de pesquisa em torno da mobilidade elétrica na Volkswagen. E de teimosia também… Viagem até ao tempo dos gloriosos pioneiros de Wolfsburgo.

Novembro de 1989, Wolfsburgo, fronteira com a antiga RDA. O muro de Berlim caiu há pouco mais de duas semanas e este é o primeiro fim de semana de abertura.

Foto: RWEAs autobahn junto à fronteira estão pejadas de Trabant que deixam um rasto de fumo branco e aquele odor inconfundível do motor a dois tempos. Os autocolantes “DDR” colados na traseira dos “trabis” são rapidamente ajustados aos tempos que aí vêm: o D de Demokratische o R de Republike são tapados com fita isoladora. Sobra, como nos carros do lado de cá da fronteira, o D de Deutschland… A unificação das duas alemanhas começava ali mesmo, na beira da estrada. Nas áreas de serviço, hordas de famílias vindas de leste olham para os menus coloridos com o deslumbre de quem lê uma história colorida pela primeira vez na sua vida. E, na verdade, faz-se História naquele dia ensolarado e frio.

Um grupo de jornalistas portugueses viaja de carro até à fábrica mãe da Volkswagen, precisamente em Wolfsburgo. Presencia tudo isto antes de cruzar os portões da unidade fabril onde vai assistir à produção do Passat B3, um modelo que, na sua terceira geração, estava finalmente a impor a marca no difícil segmento D. Também aqui se assistia ao começo de uma das mais bem-sucedidas histórias do mercado automóvel dos tempos modernos. Mas havia mais surpresas reservadas para aquele grupo de profissionais da comunicação social portuguesa, ainda meio atónito com tudo o que se estava a passar: fosse pelo ambiente de abertura, fosse pela visível comoção generalizada entre os alemães, os responsáveis de Wolfsburgo decidiram também eles oferecer àqueles profissionais vindos de Portugal uma súbita glasnost… Numa pequena pista entregue ao departamento de R&D, um Polo e um Golf esperam por eles. Aparentemente iguais por fora, escondem no seu interior alguns dos mais recentes trabalhos do grupo VW em matéria de eficiência. O Polo presenteia-os com a mais moderna versão do sistema start-stop, enquanto o Golf, uma unidade da geração II, anuncia logo no exterior ao que vem: trata-se da mais nova evolução do motor elétrico.

Foto: VWFoto: RWEEstamos, recorde-se, no ultimo ano da década de 80. A crise petrolífera dos anos 70 já ia longe e apesar daquele aviso ao mundo ocidental de que nada era garantido – nem o petróleo! – as preocupações com a economia de combustível eram vistas mais ou menos como um extra… bem-vindo, claro, mas mesmo assim um extra. Para a Volkswagen, os sistemas start-stop nem eram uma novidade: os inovadores Polo Formel E (a partir de 1985) e os Passat B2 (geração de 1981) já os ofereciam como opcional, mas o publico via este equipamento como pouco útil e demasiado caro… E a mobilidade elétrica, no arranque dos anos 90, uma década que haveria de ser uma das prósperas do século, era algo que estava mais reservado aos departamentos de R&D do que a uma necessidade ou imperativo ditado pela consciência coletiva da sociedade.

Aquele grupo de jornalistas não deixou de se impressionar com as novidades surpresa, tanto mais que para a maioria deles esta experiência foi a primeira com um start-stop ou com o silvo de um motor elétrico. Mas aquilo que na realidade lhes estava a passar pelas mãos era o testemunho da visão de uma marca, a inesperada antecipação de um futuro que ainda vinha longe, mas que se começava a preparar com estes projetos.

No principio era a Transporter…

Esta pequena história é sintomática do percurso do Grupo Volkswagen em torno das tecnologias sustentáveis. Basta, de resto, uma pequena investigação às últimas décadas do Grupo para perceber como este construtor nunca quis perder de vista as soluções de mobilidade alternativa. Nestes momentos da sua História, todos sabiam que o contexto mundial ainda não era o propício à vulgarização de tecnologias como a mobilidade elétrica ou os tais start-stop, mas, mesmo não havendo bolas de cristal para adivinhar o futuro, persistia aquele instinto estratégico que nunca deixou que estas ideias fossem arrumadas no arquivo morto dos planos de R&D.

Foto: VWFoto: VW

O grande impulso para a tecnologia elétrica na Volkswagen começou exatamente em 1970, três anos antes da crise petrolífera que durante quase um ano haveria de deixar os postos de abastecimento no colapso e os preços inflacionados. Não é que houvesse as tais bolas de cristal (ou será que havia?), mas o certo é que a marca alemã decidiu criar um grupo de trabalho chamado Zukunftsforschung – que em português significa (numa tradução muito livre) Investigação para o Futuro – liderado por Albert Karbelah, um engenheiro que não esconde ainda hoje o seu orgulho por ter feito parte desta geração de pioneiros de Wolfburgo: “Eramos apenas 10 pessoas, mas dois anos depois, em 1972, conseguimos apresentar o nosso primeiro projeto, uma Transporter T2. As baterias eram acondicionadas no piso e podiam ser removidas como uma gaveta por um empilhador…”

Um ano depois, em 1973, fruto do embargo decretado pelos países árabes produtores de petróleo em protesto contra a intervenção dos EUA na guerra do Yom Kippur, surge a crise petrolífera, que se iria prolongar até Março do ano seguinte.

Na Volkswagen, o grupo de engenheiros do Zukunftsforschung ganha um inesperado e rápido protagonismo graças ao interesse manifestado por empresas de distribuição de variadas áreas: “A autonomia da T2 elétrica era de 50 quilómetros e isso entrava dentro do raio de ação que essas empresas pretendiam. Entre 1973 e 1975 testámos nada menos do que 70 unidades da T2, que foram construídas na fábrica de comerciais de Hanover”, recorda Karbelah.

A primeira viatura de serie elétrica com a marca Volkswagen seria apresentada no Salão de Frankfurt de 1977, precisamente uma T2 com autonomia de meia centena de quilómetros e um slogan a condizer: “Elektro-Transporter: 0 litros aos 100 km”. Este modelo atraiu as atenções, mas, naquela altura em que o mundo começava a respirar fundo depois da crise, o seu apelo já não se fazia sentir de forma tão entusiástica: para a história fica o primeiro modelo de série elétrico e a venda de apenas 20 unidades.

A saga dos Golf elétricos

A maior aventura da Volkswagen nos carros elétricos começa verdadeiramente com o modelo Golf. Com o eclodir da crise petrolífera, e em paralelo com os testes na Transporter, a equipa de Adolf Karbelah é encarregada de desenvolver uma solução que respondesse aos anseios dos milhões de automobilistas que se apinhavam em longas filas para abastecer os seus carros e que, pela primeira vez desde sempre, começavam a perceber que o petróleo estava sujeito a frágeis equilíbrios geopolíticos.

O Golf, lançado em 1974, era a aposta familiar de maior sucesso na europa –  menos de dois anos após a estreia, já haviam sido vendidas mais de dois milhões de unidades. Tratava-se, por isso, de uma aposta lógica para desenvolver a visão de mobilidade alternativa da Volkswagen nos anos 70.

O primeiro protótipo acabaria por surgir já depois da crise, em 1976, um Elektro-Golf com uma solução técnica relativamente simples, baseada num motor 20 kw (27 cv) alimentado por um conjunto de baterias de 16 v com a tecnologia da época (chumbo), recarregáveis através de uma vulgar tomada de 220 v, num processo que demorava 12 horas. Mas tudo estava apenas no princípio e este era por enquanto um protótipo para testar variadas soluções. A autonomia mantinha-se no patamar dos 50 km, enquanto a velocidade máxima se situava à volta dos 80 km/h.

O primeiro grande passo surge em 1981, ainda com o Golf I, altura em que nasce o primeiro da longa saga dos denominados “City Stromer”.  O Golf I City Stromer torna-se o primeiro a ser utilizado em condições reais de estrada, fruto de uma parceria com a empresa de eletricidade alemã RWE, ao serviço da qual foram colocadas 25 unidades. Essencialmente com a mesma tecnologia do pioneiro Elektro-Golf, o primeiro City Stromer destacava-se pela forma como podia ser utilizado no dia a dia: as baterias ficavam acondicionadas sob a bagageira e os bancos de trás, libertando espaço para quatro ocupantes. O peso total era de quase 1,5 toneladas (face aos cerca de 900 kg das versões normais), mas mesmo assim era possível alcançar os 100 km/h. A autonomia de 60 km permitia que os funcionários da RWE percorressem, com uma carga intermédia, cerca de 100 km num dia de trabalho. A prova de que o primeiro City Stromer era um carro para a estrada e não apenas para ser mostrado em salões do automóvel pode ser vista ainda hoje no museu da Volkswagen, onde o exemplar exposto conta com uns generosos 20.473 km registados no conta-quilómetros…

A “saga” City Stromer prosseguiu com o Golf II, do qual foram produzidos 70 exemplares elétricos entre 1985 e 1991, igualmente utilizados por empresas parceiras do projeto, pelo que o novo grande salto só acontece verdadeiramente em 1993 com o Golf III: numa decisão no mínimo audaz, a Volkswagen decide comercializar a sua versão elétrica junto do grande público. Desenvolvido em cooperação com a Siemens, o Golf III City Stromer foi produzido até 1996, período durante o qual se venderam 120 unidades. A uma velocidade constante de 50 km/h, este Golf elétrico já conseguia autonomias da ordem dos 90 quilómetros, um valor verdadeiramente inédito para a época. As baterias, distribuídas pela frente e pela traseira, tinham agora maior capacidade – 180 ah – e o tempo de carga até 80% ficava-se por uns bem mais confortáveis 90 minutos.

Foto: VWO Golf III City Stromer é, ainda hoje, um marco incontornável de toda a indústria e da história do carro elétrico. Para além de ter sido um dos primeiros familiares a contar com uma versão “e” disponível para venda, introduziu tecnologias verdadeiramente percursoras, tais como a regeneração de energia durante a travagem – a primeira vez que tal equipamento foi disponibilizado num carro de série.

O amadurecimento da tecnologia elétrica por parte da Volkswagen era já uma realidade e perdura até aos dias de hoje como testemunho de fiabilidade: nas estradas alemãs ainda circulam várias unidades desta geração, a maior parte delas adaptadas com baterias de iões de lítio. Das vezes que foram solicitados para entrevistas, o que tem acontecido com maior frequência nesta era da multiplicação dos carros elétricos, os seus proprietários não escondem o orgulho por fazerem parte de uma certa geração de excêntricos que decidiu embarcar na compra de um automóvel com este tipo de motorização.

Foto: VWFoto: VW

A era moderna

O salto quântico que abriu a porta para a era moderna dos Golf elétricos acontece em 2010 com a geração VI. Desta vez não foi necessário qualquer choque petrolífero ou filas intermináveis nas bombas de gasolina: os tempos eram outros e a sustentabilidade ambiental estava na ordem do dia. A tecnologia até dava uma ajuda preciosa e o mundo de inovação ao dispor dos engenheiros era extraordinariamente mais completo do que aquele que se apresentava à corajosa equipa Zukunftsforschung de Adolf Kaberlah em 1970.

Caiu o nome City Stromer e entrou em cena a designação “e-Golf”, mas mesmo assim, apesar do tremendo impulso, a geração VI era ainda encarada como um “ensaio geral” para uma realidade que a Volkswagen estava a preparar para o curto prazo – o lançamento de uma versão elétrica de grande produção. Na verdade, é com a geração VII que se realiza verdadeiramente aquele sonho de futuro que alimentou os projetos de 1970: um e-Golf entra em produção em 2013 e surpreende o mundo automóvel com a sua versatilidade.

Foto; VWFoto: VW

Foto: VWFoto: VWNo entanto, o mercado pedia mais. O carro elétrico é visto cada vez mais como a solução de futuro e, pela primeira vez na História, a tecnologia torna-o viável e acessível. A Volkswagen responde, assim, com a mais recente evolução do e-Golf, que agora é lançada no mercado, trazendo consigo características realmente expressivas. As credenciais do novo e-Golf VII são claras: a tecnologia de baterias de iões de lítio, desenvolvida pela Volkswagen, permite uma otimização de espaço sem precedentes e autonomias da ordem dos 300 km, com apenas 20 minutos para atingir 80% da carga total. O motor de 100 Kw (136 cv) oferece velocidades máximas da ordem dos 150 km/h e uma aceleração dos 0 aos 100 km/h em apenas 9,6 segundos.

Entre este e-Golf e o primeiro Elektro-Golf distam exatamente 41 anos. Mas o salto tecnológico e o nível de performance atuais mal poderiam caber nos sonhos daqueles 10 engenheiros que começaram a construir o ideal elétrico em Wolfsburgo. Nessa altura, a persistência, a raiar a teimosia, era a sua maior energia. Ainda bem que nunca desistiram.

 Fonte: NEWSROOM SIVA
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