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Bentley: O sonho de Walter Owen

A Bentley celebra este ano o seu centenário. Um século de carros de sonho e, acima de tudo, de muita devoção ao melhor do automóvel.

A história de Walter Owen Bentley, o fundador da mítica marca britânica em 1919, só podia dar certo. A paixão pela velocidade nasceu com ele, mas era a engenharia que o cativava.

Filho de um abastado homem de negócios, cresceu no conforto do bairro de Hampstead, em Londres, o que o fazia sentir-se em casa em todas as social ocasions da elite londrina do princípio do século XX. Hoje, passados 100 anos, não podemos deixar de pensar como esta combinação de velocidade, tecnologia e elegância se continua a traduzir tão bem nos modelos da Bentley.

Para entender a Bentley é fundamental conhecer o seu criador. Porque, como bem se vê, os carros foram feitos à sua imagem e de acordo com a sua perceção do mundo. Os anos passam, os acionistas mudam, mas aquele logotipo continua a respirar tal e qual o primeiro fôlego de Walter Owen. Talvez não haja outra marca assim.

Chamem a polícia!

W. O. (como gostava de ser chamado) nasceu em 1888 e desde cedo mostrou atração pelas máquinas. Diz a história que, logo aos 9 anos, comprou uma bicicleta em segunda mão, que desmontou para entender o seu funcionamento. Aos 16 anos largou a escola para ingressar como aprendiz na Great Northern Railway, onde realizou o seu sonho de criança a bordo de uma locomotiva a vapor, como ajudante de maquinista (e, nesta altura, “ajudante” significava alimentar a caldeira com valentes pazadas de carvão para manter a pressão no ponto certo). O estágio, de cinco anos, foi também o primeiro contacto de W. O. com a engenharia, mas, no final do curso, ele estava decidido a seguir outro caminho.

A sua paixão estava na estrada. E o jovem Walter nem sequer estava sozinho: por esta altura, a Europa e, em especial, a Grã-Bretanha viviam os primeiros dias da mobilidade motorizada. E o alvoroço era tão grande que merecia aquele protagonismo só reservado às chamadas “causas fraturantes” entre os súbitos de Sua Majestade: de um lado, aqueles que não conseguiam aceder ao automóvel e que o demonizavam, considerando-o poluente e um perigo ambulante; do outro lado, claro, as classes sociais privilegiadas, que defendiam o automóvel e aderiam a ele sem olhar a despesas.

Mas este era o país da Revolução Industrial e os legisladores entenderam que não havia marcha-atrás. Por isso, em 1904, aprovaram um novo Motor Car Act ajustado aos novos veículos – aos quais passava a ser exigida documentação e matrícula. O limite de velocidade foi estabelecido numas estonteantes 20 milhas por hora (32 km/h), mesmo assim mais generoso que as anteriores 12 mph (cerca de 19 km/h). E um brinde: os controlos policiais de velocidade.

O que tem tudo isto a ver com Walter Owen Bentley? Muito mais do que se possa pensar. Em primeiro lugar porque o coloca no seu tempo – um jovem de 16 anos apaixonado por veículos motorizados. E, em segundo lugar, porque obrigou este teenager a levantar-se de madrugada muitas vezes…

Nos intervalos do seu curso na Great Northern Railway, já W.O. dava largas à velocidade na sua moto Quadrant, com a qual, juntamente com dois dos irmãos, se iniciava em corridas locais. Os treinos, em estradas rurais, tinham de ser feitos bem cedo, antes da chegada dos traffic constables, que cronometravam os veículos nas novas e temíveis speed traps, o que só tornava a rotina dos irmãos Bentley ainda mais dura – porque não há adolescente que goste de se levantar cedo e esta é uma realidade também secular.

Não sabemos se W.O. alguma vez foi multado, mas o que se sabe é que, em 1907, este jovem agora com 19 anos alinhou na Londres-Edimburgo (quase 700 km), prova na qual, apesar de uma avaria à chegada à cidade escocesa, conseguiu reparar a moto a tempo de se qualificar para a medalha de ouro. Mais ouro se seguiu, na Londres-Plymouth e na Londres-Land’s End de 1908. À medida que o seu amor pela competição crescia, W.O. tornou-se mais habilitado e competente na afinação da performance do motor, de que são exemplo as modificações que introduziu na sua Rex Speed, que rapidamente foram adotadas pela equipa oficial da marca, tal era a sua eficácia.

Um espírito sempre curioso

Bentley passou a adolescência e o começo da idade adulta entre a formação na Great Northern Railway, outra em engenharia no King’s College e um primeiro emprego na National Cab Company, onde tinha como missão supervisionar a frota de 250 unidades Unic, marca francesa que alimentava uma boa parte da oferta de táxis em Londres.

As competências de engenharia de W.O. foram determinantes quando, em 1912, fundou a sua primeira empresa com um dos irmãos, a Bentley & Bentley Ltd, dedicada à importação de carros da marca francesa Doriot, Flandrin & Parant.

Na boa tradição da época, os modelos eram importados apenas em chassis e motor, sendo entregues a carroçadores ingleses que operavam então a sua magia de luxo. Mas nem foi tanto aqui que o génio tecnológico de W.O. se viria a revelar: foi, pelo contrário, naquilo que mais gostava – os motores.

Numa visita aos escritórios da DFP em França, W.O. Bentley deteve-se num invulgar pisa-papéis feito de alumínio e questionou-se se esse material leve não seria indiciado também para o fabrico de pistões mais eficientes do que os tradicionais, em aço ou ferro fundido. Para incrementar a resistência e impedir que derretesse a altas temperaturas, passou algum tempo numa fundição experimentando novas ligas à base de alumínio até chegar à formulação final: 88% de alumínio e 12% de cobre.

O seu espírito curioso tinha, mais uma vez, valido a pena. Com estes novos pistões instalados nos motores dos DFP, Bentley conquistou uma vitória em Brooklands e ainda um novo recorde de Flying Mile em 89,7 mph (143,5 km/h).

Esta importante descoberta viria a provar-se crucial nos anos seguintes.

O eclodir da Primeira Guerra Mundial, em 1914, forçou W.O. a colocar em espera o seu sonho de fundar a própria marca de automóveis, mas não o deteve: como capitão da Royal Naval Air Force, usou o seu conceito de pistões de alumínio para desenvolver um motor de avião significativamente mais potente e fiável. Os motores Clerget dos míticos biplanos Sopwith Camel apresentavam níveis de fiabilidade demasiado baixos perante as exigências de combate, pelo que W.O. Bentley os transformou por completo. Nasceu assim o BR.1 (de Bentley Rotary), que transformou o Sopwith Camel no mais bem-sucedido caça britânico da guerra. W.O. desenvolveu ainda outra versão, mais potente, a BR.2, levando ao limite o potencial deste tipo de propulsores.

O nascimento da Bentley Motors

Reconhecendo sua contribuição determinante para o esforço de guerra, W.O. Bentley foi agraciado pelo Rei Jorge V com o grau de Cavaleiro da Ordem do Império Britânico (MBE – Most Excelent Order of the British Empire), em 1919. Para além da distinção, o génio de W.O. durante a guerra valeu-lhe também 8.000 libras de um prémio atribuído pela Commission of Awards to Inventors, o que lhe deu o capital necessário para realizar sonho de fundar a sua própria empresa de fabrico de automóveis.

E assim, em 10 de julho de 1919, nasceu a Bentley Motors. “A estratégia era simples”, disse W.O., recordando esses tempos: “Nós íamos fazer um carro rápido, um bom carro, o melhor da sua classe.” Um objetivo que iria alcançar repetidas vezes.

O primeiro Bentley da história ficou concluído em Outubro desse mesmo ano. O modelo 3-litros foi construído numa oficina perto de Baker Street, em Londres, alimentado por um motor de quatro cilindros e 65 cv. Foi o primeiro carro de sempre a ostentar o icónico radiador estilizado da Bentley e a insígnia ‘B’ no topo do radiador. Uma herança que se mantém intacta 100 anos depois.

Durante o período de desenvolvimento deste primeiro Bentley, a revista Autocar escrevia que W.O. estava a trabalhar num modelo “destinado a apelar aos condutores entusiastas que desejam um automóvel que, na prática, seja um verdadeiro carro de corrida com acessórios de turismo” – um objetivo que ainda faz parte do ADN da Bentley nos dias de hoje. Após o sucesso do 3 Litros, surgia em 1926 um modelo animado por um 6 cilindros de 6 litros, originalmente batizado Big Six e, dois anos depois, com um nome mítico da história do automóvel: Speed ​​Six. Em 1928, W.O. lança o 4,5 Litros de quatro cilindros e, em 1930, um 8 litros de seis cilindros. Todos estes modelos tinham em comum a sua vocação de estradistas, mas com a potência e a robustez para alcançar resultados inéditos também na competição.

De Le Mans para o resto do mundo

A competição foi, de resto, um dos aceleradores da fama da Bentley. Mais: mudou para sempre a sua história e a do seu fundador.

Walter Owen era um apaixonado pelas corridas, muito pelos desafios de engenharia. Isso era evidente desde a sua adolescência nas motos. Mas a verdade é que era um cético quanto à corrida do momento nos anos 20: as 24 horas de Le Mans. Em 1923, ano da primeira corrida de sempre no mítico Circuito de La Sarthe, W.O. ainda dizia que era uma prova “sem sentido”: “Os carros não são projetados para suportar esse tipo de tensão por 24 horas”. Por isso mesmo, nesse ano, o Bentley 3 litros que alinhou na prova resultou da iniciativa de uma equipa privada, de Frank Clement e John Duff, terminando num honroso 4º lugar. Impressionado, Walter mudou de ideias… Um ano depois, os dois pilotos viriam a rubricar a primeira vitória em Le Mans com um Bentley, no que foi o início de uma saga que define a marca até aos dias de hoje.

Esta vitória de 1924 foi mais do que uma alavanca de reputação: ela viria a salvar a Bentley de um fecho prematuro. Tudo porque o multimilionário Woolf Barnato, herdeiro da fortuna de diamantes das minas Kimberley e ele próprio um piloto brilhante, ficou impressionado com o resultado em Le Mans e decidiu investir na marca quando esta atravessava grandes dificuldades financeiras. Barnato torna-se dono da companhia, com W.O. a assumir a direção executiva, e o projeto de Le Mans, agora com dinheiro fresco, ganha novo alento.

A história é conhecida: os anos dos “Bentley Boys”, geração de pilotos bom vivant da nata europeia, traduziram numa série de vitórias que qualquer amante dos automóveis reconhece como ícone. Entre 1927 e 1930, foram quatro vitórias consecutivas da Bentley em Le Mans, com Woolf Barnato, o novo chairman da Bentley, a vencer em 1928, 1929 e 1930. Nos dois últimos anos, de resto, o mito teve um protagonista especial: o famoso Speed Six “Bentley Blower”, derivado do modelo de produção de 6,5 litros e que debitava uns impressionantes 200 cv às 3500 rpm.

As reviravoltas da história

A grande depressão económica que estalou em todo o mundo em 1929 não poupou a Bentley. A crise, que duraria uma década, mergulhou a economia mundial numa crise sem precedentes e todos os planos foram reescritos. Incluindo o de Woolf Barnato que, em novembro de 1931, se cansou de investir na marca e a vendeu ao fundo British Central Equitable Trust – que, veio a saber-se, estava a atuar para a Rolls-Royce. W.O. continuou a trabalhar para a Bentley, mas a sua insatisfação levou-o a deixar a empresa no final do seu contrato, em 1935. Depois de sair da “sua” Bentley, W.O. associou-se à Lagonda e à Armstrong Siddeley, onde assinou inúmeros projetos de engenharia centrados nos motores. Permaneceu nesta última até se aposentar.

Quanto à marca, depois de décadas à sombra da Rolls-Royce e de uma atribulada luta pela sobrevivência, viria a ser adquirida formalmente pelo Grupo Volkswagen em 1998. O fabricante alemão investiu cerca de 500 milhões de libras (582 milhões de euros, ao câmbio atual) na modernização da fábrica de Crewe e no desenvolvimento de produto. A marca Bentley voltava a conhecer a diferenciação e, ao longo da década seguinte, a apresentar uma gama de modelos mais extensa do que nunca.

Walter Owen Bentley morreu em 1971, aos 82 anos. Não viveu para ver o renascimento da sua marca, mas o legado continua. Isso mesmo ficou claro no último Salão de Genebra, onde a marca mostrou ao mundo até que ponto a sua herança é levada a sério: no stand da Bentley, a estrela foi um Continental GT “Number 9 Edition”, série especial limitada a 100 unidades, tantas quantos os anos da marca. A grelha negra, com um “9” pintado a branco, evoca o lendário “Bentley Blower” que Woolf Barnato e Henry Birkin conduziram em Le Mans na vitória de 1930.

Walter Owen Bentley teria gostado de ver.

(Newsroom SIVA)

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