Notícias actualizadas ao minuto sobre o sector automóvel

Covid-19: o impacto global no mercado automóvel

É certo que a atual pandemia traz consigo uma grande recessão económica, mas olhemos especificamente para o mercado automóvel para perceber o impacto que podemos esperar.

Os tempos são incertos, mas no que diz respeito ao mercado automóvel, existe uma grande certeza: o surto de Covid-19 representará um enorme desafio ao setor. Em todo o Mundo os governos nacionais estão hoje concentrados na contenção da epidemia, mas chegará o dia, num futuro não muito distante, em que todas as medidas se centrarão na tentativa de controlar uma profunda recessão que, indubitavelmente, arrastará o mercado automóvel. Segundo um artigo publicado recentemente por Dieter Becker, Partner e Global Head of Automotive da KPMG, é previsível que a Coreia do Sul, a Itália e o Japão sejam os países mais afetados, entre as maiores economias industrializadas.

80 por cento das empresas relacionadas com a indústria e mercado automóvel acreditam que o novo coronavírus terá um impacto direto nos resultados de 2020. E 78 por cento destas empresas não têm pessoal suficiente em laboração para formar uma linha completa de produção.

Outro dado importante apontado pelo responsável da KPMG aponta para uma queda de mais de 80 por cento das cadeias de fornecimento, intimamente ligadas à China. No passado mês de janeiro, as vendas de automóveis em território chinês afundaram em 18 por cento, e em fevereiro este declínio atingiu os 80 pontos percentuais. A China Passenger Car Association (CPCA), associação referência do setor naquele país, considera que os dois primeiros meses do ano podem ter representado uma queda de 40 por cento das vendas de automóveis relativamente ao período homólogo em 2019. Dados impressionantes e que indicam um impacto severo no setor, após disrupções nas cadeias de fornecimento que terão afetado globalmente a produção de veículos em todo o Mundo.

 

A recuperação

Hubei, a província da China Central onde “nasceu” o novo coronavírus, é uma das quatro maiores bases de produção automóvel da China e alberga mais de 100 fornecedores do setor. Na sequência do surto, as fábricas automóveis de Hubei foram encerradas e só começaram lentamente a reabrir em meados do mês de março último. Com a China mergulhada numa severa quarentena nos dois primeiros meses do ano, as vendas de automóveis caíram quase até zero. No entanto, fevereiro já é, tradicionalmente, um mês fraco para o mercado automóvel naquela zona do globo, devido às celebrações do ano novo chinês, o que quer dizer que os verdadeiros números a espelhar o impacto do novo coronavírus no setor são aqueles referentes ao mês de março, que Pequim ainda não divulgou.

Com a migração do surto de Covid-19 para a Europa, a China regressa, gradualmente, à normalidade. Segundo a China Association of Automotive Manufacturers (CAAM), uma associação chinesa que reúne os principais players da indústria, mais de 90 por cento dos 300 fornecedores de peças nos arredores de Hubei retomaram a laboração na última semana de fevereiro. Com todas as fábricas a voltar à atividade, as taxas de produção continuam em baixa devido à falta de encomendas por parte dos fabricantes e também a problemas de logística.

Dieter Becker, da KPMG, recorda que o Serviço de Investidores da Moody’s previu uma queda de 2,5 por cento nas vendas globais do mercado automóvel devido ao surto de Covid-19, um valor bastante diferente da previsão inicial de 0,9 por cento. No entanto, com a propagação da epidemia, Dieter Becker considera que a queda poderá situar-se entre os 6 e os 8 por cento, valores que trazem consigo um efeito totalmente indesejável: um contágio deste impacto para o ano 2021.

Apesar das piores previsões, o responsável da KPMG também lembra que «as pessoas não gostam de andar de transportes públicos», o que fará reemergir, no regresso à normalidade, o interesse na aquisição de carros. Tudo depende, no entanto, do período de restrição que venha a mostrar-se necessário para a contenção do novo coronavírus, assumindo (sem certezas) que não haverá uma nova vaga de contágio ainda no decorrer deste ano.

À data atual, a KPMG Automotive Institute acredita num relançamento global do mercado automóvel no terceiro trimestre do ano. Mas a propagação do vírus e as diferentes reações à pandemia entre os países da Europa deverão atrasar a recuperação da economia, mesmo que lentamente esse relançamento esteja a começar na China. As vulnerabilidades do mercado (tensões transacionais e queda de vendas, por exemplo) deverão persistir durante o terceiro trimestre devido aos inventários apertados e às complexas cadeias de fornecimento, de acordo com as previsões da KPMG.

A atual pandemia deve ser vista, diz a KPMG, como uma onda global que deixará uma “pegada”, simultaneamente, na produção e nas vendas em todo o Mundo. As empresas com uma forte dependência do mercado chinês foram alvos de um impacto direto e poderão agora iniciar um processo de recuperação. O mesmo acontecerá, a seu tempo, com as empresas dependentes de outras regiões da Ásia – como a Índia, por exemplo -, da Europa e da América do Norte.

Dieter Becker, da KPMG, escreve que nenhum dos 10 maiores OEM do Mundo tem as suas “pegadas”, de produção e vendas, na mesma região do Mundo. Com o vírus a evoluir em ondas ao redor do globo, aquelas empresas que dependem da China foram atingidas com violência em fevereiro e março, mas irão beneficiar do regresso à normalidade naquele país já a partir deste mês de abril. O responsável da KPMG acredita mesmo que possa haver alguns países onde ocorrerá um pequeno “boom”, devido ao suporte ao setor por parte de subsídios governamentais.

Assim, é também previsível que, em 2020, estas empresas com maior dependência da China sofram um menor impacto do que as restantes, tendo em conta que, para Pequim, a recuperação já começou. Certo é que para o mercado, em termos globais, todo este impacto deverá levar algum tempo a corrigir, razão pela qual a KPMG elaborou um conjunto de recomendações às empresas, onde se contam ações como a proteção aos funcionários, a criação de planos de contingência, a implementação, sempre que possível, de teletrabalho, a formação de equipas focadas no acesso às cadeias de fornecimento e na gestão de risco e a colaboração com os governos na exploração de benefícios fiscais, entre outras medidas.

Ler Mais

pub


OUTRAS NOTÍCIAS
Comentários
Loading...